caríssimos,
hoje escrevo-vos sobre algo que penso nos tende a unir a todos — de mil e uma formas diferentes — a música tende a ser um ponto de conforto para todos, e certamente o vejo também em mim.
Dia 26 de março de 2026 fui ao Coliseu de Lisboa ver a MARO, com a minha caríssima amiga Isabel. E como primeiro concerto do ano, não podia deixar de me entusiasmar e querer relatar-vos a experiência, neste meio.
A verdade é que — mais do que o próprio concerto, do qual também vos descreverei — acabei por sentir algo ainda mais belo, dentro disto de sermos pessoas, em comunidade, e de termos a arte como papel de união.
Este vai ser certamente um post breve com uma narrativa relativamente romântica, nisto de reconhecer e apreciar a paz e o amor numa multidão, e a união possível num espaço partilhado com estranhos — em suma, uma hippie que acaba sempre por tombar num certo pessimismo.
A verdade é que há momentos em que olhamos ao redor e somos surpreendidos pela parte mais humana e real dos outros humanos que nos rodeiam- com música, a meu ver, isso é uma magia que se repete, em tantos concertos e em tantos momentos – a beleza de encontrar um ponto em comum com alguém no ginásio, ao apercebermo nos que têm uma tshirt de um artista “nosso”, ou o sorriso escondido ao ouvirmos a nossa banda preferida tocar num espaço público. A verdade é que a arte também constrói aquilo que vemos como identidade — sou aquilo que gosto de ver e ouvir, e sou, em parte, a arte que consumo — claro está que, ao vermos homólogos apreciadores, cria-se uma comunidade momentânea, e nós, como simples macacos com internet, biologicamente precisamos de estar rodeados por outros macacos.
dei então por mim no coliseu, a ouvir música sobre amar e quebrar, amando, a sentir a quebra de tantos outros estranhos. num país que hoje parece separar-se cada vez mais, houve algo de muito bonito ali partilhado. éramos só um coliseu a ouvir uma voz bonita — acompanhada de um sorriso meigo — e a confiar em nós, as dores e angústias que o amar por vezes traz.
penso que todos os que me leem já conhecem o trabalho da MARO.
lembro-me de ouvir falar dela pelo meu amigo João, ainda no ensino secundário, pelo trabalho que fazia com o também prezado Jacob Collier. depois disso fui ouvindo o que foi lançando, até me surpreender ao tê-la a representar Portugal, na minha televisão, na eurovisão. quando a caríssima isabel me mencionou o concerto — pareceu-me uma decisão facílima de fazer, e lá fomos as duas — ouvir a MARO cantar “TO GRIEVE YOU”, como uma navalha lírica, e ouvir o coliseu, a mil vozes, com “SO MUCH HAS CHANGED”.
tentei afogar outros pensamentos que claro acabavam por ir entrando numa mente que não se cala- a minha parte mais racional leva-me a pensar naquilo que me distancia de todos estes seres que partilham este evento comigo, fora destas paredes musicais. a união que sinto aqui e a liberdade de ouvir cantar sobre amor e reconhecer, juntamente com tantos outros, que todos o sentimos — soube-me bem, ainda que agridoce. foi bonito reconhecer que as mágoas e as felicidades que outrora já senti, ao deixar-me cair em romance – é algo partilhado por tantos, mas a realidade da diferença não demorava a fazer-se sentir. foi quando olhei ao redor também, que me questionava sobre estes seres- aqui vulneráveis e felizes – abraçados, em casal, ou sozinhos e emocionados- questionei-me sobre a distância que praticamos assim que daqui saímos. quantas pessoas com quem cruzo rotinas estão também neste espaço, a sentir a mesma música? e quantas pessoas com quem me cruzo têm também todas estas letras decoradas? quanto de mim é que tenho em comum com estranhos, e quão estranha é esta crónica individualidade atual?
caros leitores, não procuro, com nenhum destes posts, responder a questões de forma clara e concisa — não tenho uma resposta para tudo isto que sinto e senti — apenas decido partilhar estes meus devaneios convosco (e assumo que deixar-me escrever e desabar em devaneios tem sido um exercício complicado, ao querer sempre chegar a um patamar de perfeição, que não ajuda nada nem ninguém).
a verdade é que foi bonito — foi bonito sentir que por uma hora não havia diferença. ver tanta gente embalada por uma escrita romântica e honesta, soube-me a paz— naqueles refrões não interessava quem amávamos. o ponto não era amar um homem ou uma mulher, mas sim amar e ser (ou não) quebrado por isso — o importante ali foi sentir e deixar sentir — foi a mágoa de relações passadas e atuais — foi cantar como catarse e envolvimento na arte — fosse ela proveniente de uma relação “fora do esperado” ou não.
não sei se se deve ao meu atual curso científico em biologia ou se sempre assim vi tudo, mas penso que cada vez mais me deparo com aquilo que, nos dias que correm, vai contra a nossa própria natureza. numa vida cada vez mais focada no nosso próprio mundo e na nossa própria individualidade, momentos em que sinto que estou rodeada por centenas de pessoas, que ali partilham muito (nem que só o gosto musical) deixou algo muito quentinho dentro de mim. além de ver uma artista naquilo em que claramente brilha, e além de puder ouvir a maro ao vivo, depois de anos a acompanhar o seu trabalho- gostei do amor que vi, e gostei de me rever também nesse amor.
em suma, deixo o meu apreço à MARO pela comunidade que ali criou e pelo envolvente e acolhedor concerto que me proporcionou a mim e a tantos outros. foi bonito este dia em março. e foi bonito, este meu primeiro concerto do ano.
obrigada por lerem, amigos,
guida

Deixe uma Resposta