“a respiração fica gradualmente mais ofegante no decorrer da minha fuga. sinto o coração num aperto e o pulmão a querer sair-me pela boca. sinto um peso insuportável espalhar-se pelas minhas pernas e só penso no momento em que poderei parar e dormir- no segundo onde poderei desabar em mim, e respirar, sem mágoa. quando penso ter já ganho alguma distância, permito-me a parar. sento-me no chão, depois de me apoiar naquelas tristes e frias paredes, e tento respirar. O alívio é imediato, é claro — o relaxar de todos os meus músculos e o oxigénio que agora poderá entrar, sem interrupções, são incomparáveis. então expiro- tão profundamente expiro. fecho os olhos por um segundo, mas sinto- e sei ter já outro destino. nas sombras do corredor vejo aquela silhueta – a cada subida e descida deste meu tronco que respira sinto-o mais perto – passo a passo sei ter de voltar a correr. porque razão alguma vez me renderia a toda aquela mágoa? com todas as minhas forças levanto-me, mas suponho ser já tarde demais. apanhou-me ali – vulnerável e sozinha- e fiquei três dias de cama, a fazer dos meus lençois rios- e a querer ser um outro animal- longe do pensamento e longe da fuga- felizes os burros, tristeza este meu render. apercebo-me então que fujo de sentir como o diabo foge da cruz — e para mal dos meus pecados — estarei para sempre a tentar largar-me deste meu ricardo reis — deste meu fiel inimigo do fim — que, para não sentir, nunca se permite começar nada. “
caríssimos – perdoem-me por tão dramática entrada neste momento em que vos escrevo, mas sinto-o na pele, a cada mágoa a que inevitavelmente me rendo. hoje quero falar-vos da minha constante fuga emotiva, sendo eu uma pessoa extremamente emocional. nada disto é estranho, é claro! o ser humano tem esta capacidade incrível de temer as emoções e um medo incurável de sentir “emoções más”, como se isso fosse real.
se há algo que posso afirmar a 100% sobre mim é que sempre senti, muito. fui sempre a criança birrenta que chorava em todas as festas de anos- minhas ou dos outros; a criança com mil e um medos, e uma das três crianças de toda a minha escola primária a começarem a ser acompanhadas por terapeutas estudantes, depois de respondermos a uma série de perguntas, onde rapidamente identificaram um padrão alarmante de ansiedade generalizada, no meu “eu” mais pequenino. a verdade é que, efetivamente, fazia muitas “birras” e chorava muito, o que, como sabemos, pode ser extremamente frustrante nisto de lidar com uma criança cuja cara fica banhada em lágrimas a cada momento, sem nos apercebermos bem por quê. a verdade é que só ao longo dos anos me apercebi da cura, ou do truque para ser relativamente normal- sentir sem expressar. e garanto-vos que tudo melhorou- eu havia descoberto a pólvora do meu sentir! para o meu pequeno cérebro eventualmente tudo se juntou- se eu não mostrar que estou triste, mesmo que o esteja, não vou ter os comportamentos ditos “errados” – quanto menos birras- mais os meus adultos gostam de mim, certo?
esta parte do artigo não tem como objetivo vilanizar qualquer pessoa ou adulto que acompanhou o meu crescimento- a vida é-nos ensinada todos os dias- por todos os que nos rodeiam e pelas regras ditadas por este velho jogo capitalista. a verdade é que ao crescermos temos a tendência a ser penalizados por expressar certas emoções “mais incorretas” – como sermos repreendidos pela raiva ou por simplesmente chorarmos. ao vilanizarmos emoções abrimos caminho para um jovem adulto sem capacidade para lidar com a própria tristeza, raiva, medo, ou sentimentos mais “felizes” como amar e ser amado. é também a ver os outros que vamos criando a nossa própria noção de cada emoção- se tendemos a ver alguém cujo comportamento rapidamente se torna agressivo, de uma forma palpável e física- há uma certa tendência para nos querermos afastar completamente da raiva e a categorizarmos como uma emoção “má”, que cai sobre nós na imagem de um cinto, ou de uma mão em direção à nossa pequena cara.
até em termos sociais as emoções marcam muito a nossa sociedade- vou até ao ponto de dizer que são, também, políticas- tal como disse Stenberg há uma especie de “hierarquia de emoções, quando estamos mais confortáveis com felicidade, entusiasmo e alegria, e menos confortáveis com raiva e tristeza”, assim como nota que algumas destas emoções são posteriormente reduzidas a “demonstrações irracionais emotivas” normalmente associadas a pessoas de dita “inferior racionalidade” como mulheres e crianças (assim como as mulheres serem diagonisticadas com histeria, nesta mesma base).
não nos esqueceremos também do mundo atual- com redes sociais e tecnologia cada vez mais intrometida em todos os aspetos da nossa vida (por mim falo, estou a escrever-vos, de um computador) estamos numa epidemia de atrofia emocional- os estímulos constantes e o clima sentido em todas as áreas e assuntos do prisma atual preparam-nos para continuar a fomentar uma certa apatia em relação ao mundo, e a nós próprios. hoje mais do que nunca somos mestres em suprimir. mas fazê-lo tem também muito que se lhe diga, já que a corda vai aguentando até ao dia em que se parte e se gera um caos imenso.
a verdade é que nunca consegui não sentir — aprendi a reprimir algumas das coisas que ia sentindo, e aprendi a guardar em mim a expressão emotiva, mas ao longo do tempo comecei a questionar a minha hipersensibilidade — será que sempre senti as coisas num padrão diferente do “normal”? é verdade que já não faço birras, mas talvez ainda sinta em demasia (mesmo estando fortemente medicada). constantemente dou por mim a evitar sentir as dores do dia a dia, ao fugir nesta jornada de me entender, e de perceber mais sobre mim, neste âmbito – procrastino, portanto.
nas minhas pesquisas possivelmente incentivadas pelo meu previamente estabelecido défice de atenção- pesquisei sobre o tamanho de um coração- talvez se tivesse um coração enorme (tipo grinch) ficaria simples explicar o porquê do tanto que acredito sentir, mas ao que parece a cardiomegalia não tem qualquer estudo que indique que é esse o caso – e nesta brincadeirinha aprendi que é, efetivamente, uma condição grave (e que o grinch corre um risco real de ataque cardíaco).
fui cair também na pesquisa sobre a neurodivergência, onde efetivamente me indicam a possibilidade de eu possuir um “sistema nervoso que processa informações de forma diferente e mais sensível”.
e agora?
agora nada. a racionalização das coisas só é útil até certo ponto, e certamente já o ultrapassei — racionalizar aquilo que sentimos é bom para nos preparar e guiar a agir, mas não pode substituir o sentir das próprias emoções. todo o meu ponto aqui — e aquilo cujo soco no estômago fevereiro me proporcionou foi lembrar-me exatamente disto — qualquer emoção que por mim passe — é para sentir. antes de qualquer reação ou objetivo — enquanto pessoa, é o meu trabalho, direito e dever — sentir.
e como nem tudo é mau — há exemplos incríveis de filmes e jogos que exploram esta mesma temática — histórias como “Inside Out” e jogos como “Life is Strange: True Colors” são exemplos de narrativas que nos tentam educar, nisto de respeitar a importância do nosso sentir. o luto é tão importante como o amor, a tristeza é tão importante como a felicidade e a raiva é tão essencial como o medo — e não há “más” emoções.
Em suma — isto é um pequeno artigo onde assumo ser simplesmente, para mal dos meus pecados — uma romântica incurável e uma apaixonada pelas pessoas que prezo ter como rede. talvez alguma parte do meu cérebro esteja mais sintonizada com um neurónio específico e talvez a somatização da neurodivergência venha atacar-me nesse sentido, já que cada cérebro é um cérebro e nada é igual, em termos neurológicos, mas a verdade é que não preciso de saber, porque não é algo que possa (ou queira) mudar. Tal como um pássaro não precisa de entender a ciência e a biologia por trás da sua capacidade de voar, também nós não precisamos de saber tudo para podermos viver — mas o humano não seria o humano se não estivesse constantemente à procura de perguntas sem resposta.
acho que este mês registei aqui isto mais para mim – como um lembrete de que dá para doer, e sair pelo outro lado- como já fiz milhões de vezes, acho que precisava de me lembrar que por mais que a queda seja enorme, a vista lá de cima tira-me o ar, no melhor dos sentidos. em cada bom momento da minha vida consigo sentir um pouco daquele ar — como se a cada momento bom conseguisse captar um segundo de memória — para retomar sempre que a nostalgia me bate à porta. a verdade é que ei de amar sempre, já que não sei ser alguém na vida de outra pessoa sem dar sempre parte de mim – uma dádiva e uma maldição, é claro, mas é a vida que tenho.
neste fevereiro obriguei-me a parar de correr. tenho-me deixado sentar naquele corredor e deixar que me chegue a sombra- tenho notado que fica mais fácil, caros leitores- a cada dia este “diabo” que me persegue torna-se mais parte de mim – o corredor já não é tão escuro, e esta mágoa já não pesa tanto – já respiro melhor e já vou sorrindo, por vezes. mas é duro. sentir é duro e custa, custa tão mais do que me tendo a lembrar, e por mais que às vezes não tenhamos outra escolha senão senti-lo, parar de o tentar afogar pode ser a coisa mais difícil, mas também a mais corajosa. vai doer, mas é para doer. não há cura sem a dor da ferida.
num piscar de olhos estarei a sair deste edifício — a despedir-me desta mágoa como se fôssemos amigos antigos e a caminhar para o próximo corredor — que volta a ser escuro e que me volta a retirar o ar. mas a vida faz-se disso – aprender a deixar de correr – aceitar o coração partido e viver a vida, em cacos. Eu e o meu diabo já estamos a jogar à bisca, neste corredor iluminado e cheio de cor — por vezes ainda há um certo aperto, mas não o deixo fugir — tenho sentido, dia a dia, menos mágoa. Se for eu o meu diabo — que venha a cruz — não quero mesmo ser Ricardo Reis e proibir-me da incrível vista, por saber já ter caído antes. Venha o abismo, que, a bem ou mal, lá chegaremos, e porque — contra todos os conselhos — não sei quem sou sem amar — das várias formas em que o fazemos.
conhecendo-me demorarei vinte anos a retirar coisas da gaveta — mas há música a ser escrita e narrativas por chorar de mim.
partilho convosco, já que me seguem por esta via — que estou oficialmente a desenvolver o meu segundo livro — extremamente diferente do nosso Chão do Cego e um salto enorme de género. também devem já ter notado que planeei escrever um artigo por mês. este ano vai acontecer, mas vem sempre atrasado. neste caso — estou a acabar de vos escrever sobre fevereiro, em pleno fim de junho — faz parte — obrigada por lerem 🙂
– guida
bibliografia (good stuff!)
Cuciniello, M., Amorese, T., Vogel, C., Cordasco, G., & Esposito, A. (2025). The Development of Emotion Recognition Skills from Childhood to Adolescence. European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education, 15(4), 56. https://doi.org/10.3390/ejihpe15040056
Cliffe, Johanna and Solvason, Carla (2020) “The role of emotions in building new knowledge and developing young children’s understanding” in “Power and Education- Volume 12”
Sternberg, R. J., & Kaufman, S. B. (Eds.). (2011). “The Cambridge handbook of intelligence”. Cambridge University

Deixe um comentário