a metafórica morte lírica (sobre a mórbida catarse, na escrita, e na vida) ~ janeiro

saudações caríssimos,

acredito que, desde que escreva e publique este texto antes de julho — ainda vos posso desejar um bom ano e felicitar-vos pela vossa entrada no que serão mais doze meses de vida — até recomeçarmos o relógio, uma vez mais.

exatamente nessa temática, gostaria de vos falar sobre a vida — e sobre a minha incapacidade de a odiar, por mais tentador e fácil que assim o seja (especialmente nos dias que correm).

confesso-vos que há uma certa beleza neste meu discurso para comigo — se o meu “eu” dos catorze aos dezoito anos me ouvisse falar, ia certamente revirar os olhos e acreditar que não estava a dizer nada com nada — e garanto-vos que não ia acreditar no meu “eu” atual. durante muitos anos quis amar a vida — supliquei para que as coisas ficassem mais fáceis e sonhei pelo dia em que acordar não fosse péssimo, ou pelo dia em que viver não fosse um pesadelo — e demorou — ora pela parte burocrática, ora por ser um processo — e, contra todas as hipóteses — acordo hoje diariamente, no ano em que faço vinte e cinco — a amar isto a que chamamos vida. embora sofrida (e proporcional à altura), o meu “eu” mais novo não teria sequer a criatividade necessária para imaginar tudo o que, entretanto, iria acabar por acontecer, até ao meu presente atual – e acredito que o meu “eu” atual não tenha também a imaginação para adivinhar tudo o que inevitavelmente me irá acontecer, também, daqui para a frente.

e incrivelmente — é com a bagagem cada vez mais pesada que consigo assumir amar a vida e admitir que não receio a morte, mas sim o quão rápido o tempo tende a passar — por aprender a amar a vida, receio agora cada dia que me foge entre os dedos.

não me interpretem mal, aqueles que me conhecem de forma mais próxima — não deixo de ter os meus antigos e constantes amigos diagnósticos, que certamente me acompanharão até aos meus últimos dias — ganhei a lotaria genética da depressão crónica, nasci com um temperamento bem marcado pela ansiedade generalizada, e sou também acompanhada por um (ora revoltante ora fascinante) défice de atenção — e isto, meus amigos, dificulta acentuadamente a minha paixão de caminhar por este planeta. no entanto, hoje apercebo-me de que não trocaria por nada esta oportunidade de estar viva e de poder escrever, ler e passar tempo com todos aqueles que me rodeiam. não trocaria por nada a oportunidade única de chorar baba e ranho enquanto faço um solitário karaoke, sozinha em casa, a imitar adele. não trocaria por nada a capacidade de fuga que conduzir me oferece, a sensação incomparável de estar finalmente deitada e aconchegada após uma semana difícil, ou a sensação única de amar, ser amado — e de não querer, de forma alguma, abandonar a cama de manhã, quando acompanhada de um parceiro.

mas aquilo que amo na vida vem também magoar-me da pior das formas — sei respeitar a parte racional — mas a mudança quebra-me tudo, e a metamorfose constante rasga-me o coração, sempre que caio nesse abismo da saudade e nessa cova de nostalgia — e é aqui, caríssimos leitores, que assumo ser uma control freak, ou, em bom português, autora.

escrever ficção é, nada mais, nada menos, que assumir o controlo — algo impossível de fazer em vida — podemos (e devemos) lutar pelos nossos objetivos e funções, mas, todos os dias, acabamos por ser confrontados com a mais fiel realidade — a vida acontece-nos, e a nós cabe-nos apenas vivê-la. O escritor, no entanto, tem a caneta — o fado, o destino, a história, a capacidade e o poder de magoar, acariciar ou desenvolver o personagem — escrever oferece ao escritor a capacidade de puder, a uma distância segura, lidar com as suas maiores e mais cruas mágoas e, acima de tudo, controlar como o faz- há uma enorme liberdade neste controlo em papel, e uma tendência enorme ao escapismo — dentro daquela tinta (ou nos dias que correm — pixeis) somos outra pessoa — com outros amores e outros empregos — com outros amigos, um carro e uma habitação própria — escrever é, até hoje, aquilo que mais me relembra de brincar, quando era mais nova. A escrita está para mim como os legos estavam para o meu “eu” mais pequeno — era sonhar, e, na escrita, sonho tudo — como é que posso não amar a vida?

desta forma – e por estar constantemente a tentar lidar com tudo o que emocionalmente me mexe – assumo que a morte, o amor e a vida são, sem dúvida, os pilares da minha escrita, desde que me lembro. é também através das palavras que cuspo de emoção que percebo estar absolutamente petrificada com a ideia do fim das coisas. também dentro disto de aproveitar e usufruir de tudo, enquanto por cá andar, sofro de uma insaciável fome de conhecer e aprender – de viver, estudar, escrever, cantar, partilhar. o único momento em que sinto os meus ombros relaxarem e a minha respiração retomar uma certa calma é escrevendo — ora um trabalho mais académico, ora pura ficção, ora palavras cantadas, ou nos devaneios sem nexo e fim — mais do que qualquer outro elemento na minha vida — a escrita é a minha mais fiel catarse.

na morte

nunca a vou saber sentir; no entanto, sinto-a todos os dias. o luto — encontrado não só na morte, mas no fim das coisas — serve como um novo órgão que se acrescenta ao nosso corpo e carregamo-lo como um apêndice, até ao nosso último dia — por vezes inflamado e a dar-nos dores horríveis — por vezes completamente estável, mas sempre presente. só consigo trazer o possível dos sentidos à morte quando a escrevo — daí surge o “CAPICUA” —, projeto que não será uma surpresa para os leitores que acompanharam de perto a minha vida académica como cineasta.
lembro-me de apresentar a ideia do guião que queria desenvolver — queria contar a história da Vera e do João — um reencontro improvável no funeral do pai da Vera (protagonizada lindamente pela Inês Fernandes — hoje ombro amigo —). Lembro-me de tentar vender a minha ideia e de me expressar sobre a morte, num tom ambíguo — “há vida na morte e há vida num funeral” — e recordo-me de um professor, em especial, discordar imediatamente da minha teoria. só quando enviei os ficheiros e, após uma crua e honesta nota de intenções — fui reconhecida no que realmente queria dizer —, pouco depois, a nossa catarse conjunta (realizada por Beatriz Carmo) chegou aos ecrãs da cinemateca. ao assumir que há vida num funeral, não digo, de forma alguma, que gosto de experienciar tais eventos — a morte é algo que tem a sua própria categoria, em todos os aspetos da vida — animal, vegetal e unicelular — é o derradeiro fim e, no melhor dos casos, avassaladoramente angustiante. O CAPICUA (e tudo aquilo que já escrevi sobre a morte) vive de uma dificuldade extrema de enfrentar mortes que infelizmente experienciei e o sumo narrativo que da dor extraio tem-se provado absolutamente necessário no meu processo — e nisto de acalmar um dos meus vários apêndices de luto.

no amor

também não tende a ser novidade para ninguém, que me rodeie, que tendo a explorar este assunto com a maior das forças e detalhe. tanto na vida como na escrita (sinónimos, por vezes) agarro-me à esperança de construir uma vida a dois (duas, no meu caso)— não é um detalhe essencial na vida de toda a gente, mas admito sê-lo na minha, por saber que o quero e por saber que sou, quer queira, quer não, uma incurável romântica, com fome de amar. mas, sobre a minha metafórica cardigamelia, já tenho um outro post na manga — onde me estenderei mais sobre este assunto.
a verdade é que, exatamente por ter este tema como uma parte importante naquilo que quero, em vida, já dei por mim agarrada aos testes da agulha e às leituras de horóscopo e tarot, numa busca intensa por saber mais – sobre o futuro que me espera; sobre as garantias que possa ou não ter e por uma ideia irrealista de controlo. passo a vida a tentar controlar o incontrolável — e nessa batalha contra o natural da vida, meus amigos, perco sempre. então caio na escrita — ora por escape, ora por controlo, mas a verdade é que dou sempre por mim a sorrir, enquanto cuspo desejos e anseios, mascarados de histórias. acabo por lidar com todo o medo e insegurança e trabalho nos diversos ramos por onde devaneio quando me revejo nesta temática. a escrita permite-me aceitar a grandeza das minhas emoções e permite-me sentir, sem filtros nem travões, num espaço controlado, onde não sinto que o coração seja demasiado falador. escrever sobre amar é deixar-me ser quem sou, sem medos nem entraves. em suma, escrever neste tema permite-me ser lamechas e caríssimos — por mais que o tente negar — adoro sê-lo.

na vida (e na mudança que inevitavelmente a acompanha)

podia já aproveitar alguns pedaços do meu curso superior atual e falar sobre a origem da nossa vida enquanto espécie; podia estender-me sobre Darwin e as teorias da evolução, mas, para não me desviar muito do assunto — vou referi-lo apenas, de forma a ilustrar o ponto que pretendo passar. em todos os aspetos — ora científicos, ora artísticos, ora simplesmente humanos — daquilo que é a vida, temos apenas uma constante real e comprovada — a mudança. e por muito que esse tema me magoe (pela incapacidade de controlo), não seria justo admitir que estaríamos melhor sem ela. só existo porque houve mudança e só tenho acesso a tudo aquilo que amo porque a mudança existe desde sempre, constantemente, já que a mudança está para a vida como a água e o oxigénio (e o plankton! – estes indivíduos são muito mais fulcrais para a nossa vida do que imaginamos).

a minha parte mais realista (e numa perspetiva mais “bióloga” das coisas) — lido bem com esta noção de tudo — há que haver um fim, senão nada disto faria sentido e, de certa forma — nunca nada realmente acaba (retornando às ciências e ao colega Lavoisier — “nada se perde, tudo se transforma”).
prezo saber que ainda carrego hábitos de relações amorosas que já acabaram e carregarei para sempre aprendizagens daqueles que me viram nascer. de certa forma sei que os meus filhos vão conhecer o meu avô, da mesma forma que eu, muitas vezes sem saber, estou a conhecer parte dos meus antepassados que foram também passados aos meus pais – assim se continua uma geração, e assim garantimos que uma parte de nós andará sempre por esta terra- enquanto comunidades, embora a sociedade esteja cada vez mais individualista, somos uma mistura de toda a gente que já conhecemos e de todas as nossas versões, em simultaneo.
como a minha caríssima amiga Sajara me disse — somos pontes, e sempre o seremos — e a nossa essência vai estar sempre espalhada — entre regiões, entre pessoas e entre momentos, já que somos uma mistura da nossa história, da história dos nossos antepassados e dos nossos desejos de futuro.

a catarse parece, no entanto, maior do que tudo isto — eu sei depender da escrita por tudo aquilo que já me auxiliou a enfrentar. depois de voltar de Macau, demorei um mês a conseguir ganhar coragem para escrever — penso que, subconscientemente, estava a evitar despedir-me de mais uma parte de mim — agora “abandonada” em região chinesa. mas, como prometi ser mais positiva, este ano — agora sei ser apenas uma nova versão minha, cuja ponte é bastante mais extensa, mas não está, de alguma forma, abandonada. aquela minha versão vai estar sempre ali — em memórias, momentos, pessoas e aprendizagens, mesmo doendo, pela saudade que em mim carrego, mas só através da escrita é que realmente consegui começar a aceitar mais um pedaço de mim — o que me leva a pensar em quantas coisas já saltei e em quantos textos já omiti escrever, por não querer fechar capítulos já que tenho, em mente, diversas situações pelas quais — por mais querer fechar para sempre — não consigo ainda escrever sobre — não por não querer lidar, mas por ainda não estar no ponto em que consigo estendê-las em escrita — catarse é essencial, mas nem todas as feridas dão para tratar, a frio.

Portanto, caríssimos leitores — hoje escrevo-vos sobre o invariável elemento da vida e das coisas — o efémero e a mudança — e sobre a minha incessável luta contra o tempo, que só se acalma quando fujo, em papel.

catarse

Before there was psychotherapy, there was poetry, which can be recognised as one of the oldest healing arts that has been utilised across many different cultures throughout history” — Hoffman and Granger (2015)

a catarse é um tema longe de ser recente — é trabalhada por pensadores, artistas, filósofos e ditos “sábios” desde a Grécia Antiga, mas não deixa de ser fulcral, nem essencial, abordar, quando vos falo do papel da escrita, na minha vida e nos meus dias, em pleno século 21.

“kátarsis”, ou “purificação” em grego, foi um conceito originado na medicina, ocupando um lugar relacionado à limpeza interna de um indivíduo, na libertação de toxinas (normalmente associadas a vômitos/sangramentos), e posteriormente reutilizado por Aristóteles, na arte (e, no seu caso, usada como tese nesta teoria — a tragédia, no teatro) como solução para purificar as emoções do público. ao assistirmos a uma peça e sentirmos empatia e preocupação para com os personagens, estamos a libertar-nos dessas mesmas emoções. aristóteles trouxe o sentimento de expelir toxinas “emocionais”, como uma ferramenta artística essencial para nos deixarmos sentir, num ambiente controlado e seguro. ao “emprestar-mos” as nossas emoções ao teatro, estamos a deixar-nos sentir e a trabalhar as nossas emoções, de uma forma artística, mas real, que vem, eventualmente, trazer um sentimento de calma, alívio e equilíbrio emocional.

este termo foi depois ganhando diferentes conotações, ao longo do tempo — Sigmund Freud passou a descrever a catarse como um processo terapêutico semelhante ao que é hoje a terapia convencional (falar sobre algo = sentir esse algo, através da fala) e contemporaneamente é um assunto extremamente amplo e presente em inúmeras e diversas ramificações- desde religião, medicina, desporto, psicologia, quotidiano- mas para efeitos do que quero abordar, vou guiar-me especialmente pela definição do célebre grego, que usou o teatro como linha.

para mim, a escrita é a forma mais vulnerável e honesta de lidar com tudo aquilo que me é difícil — a escrita serve-me como um filtro de emoções e como uma amarra à realidade, a distância segura. permite-me trabalhar sobre tudo aquilo que é impossível de assumir, assim como me permite sonhar, num mundo que parece cada vez mais triste. talvez pareça bizarro para alguns mas um livro sobre elfos pode ter sido uma cura de traumas para o seu autor, por variadissimas razões, assim como uma ficção em que elfos não se discriminam uns aos outros — embora irrealista — seja exatamente o conforto e o espaço para onde muitos querem fugir, de vez em quando (ou alguém pode só gostar de histórias de elfos, obviamente, mas esse não é o ponto em que estamos a trabalhar). dessa forma, uma fábula pode ser um desabafo de extremo descontentamento social e político, ou um conto de vampiros pode ser um manifesto a uma sociedade mais justa, quando fugimos para uma comunidade lírica em que nenhum ser-elfo, lobisomem ou mago morre à fome, nem é apedrejado pela cor da sua pele ou pelo parceiro com quem partilha caverna. lendo ou escrevendo – sabe bem fugir para mundos fantásticos – nem sempre apenas pelos feitiços e dragões, mas também porque, mesmo dentro da mágoa, estamos seguros e, nessa narrativa, podemos ser a nossa versão mais livre.

em suma, caríssimos, carrego a sorte e o azar de amar a vida e vivo diariamente com medo de ter escrito a minha última palavra, sem saber, mas grata por cada palavra que continua a ir saindo – ora escrita, ora falada, ora cantada. e vivo a vida no misto daquilo que é- no passado, no presente e no futuro- naquilo que nunca mais voltarei a ter, naquilo que tenho, e naquilo que anseio por ter, sabendo perfeitamente que o meu “eu” do futuro terá, também, saudades e ciúmes do meu “eu” atual- sinto que estou em constante conversa com todas as minhas versões – ora a dar forças a versões que ainda não conheci, ora a pedir força desses lados. por diversas razões, sei ter sempre a cabeça em corrida — mil e um pensamentos, a cada segundo que passa — e, então, ter momentos de presença — real presença — em que consigo parar, mesmo que num espaço ficcional, é-me tudo.

o mundo está estranho, é facto, e está difícil para todos aqueles que têm um coração a bater-lhes no peito, portanto, em qualquer que seja a vossa catarse, permitam-se à fuga e, se for esse o vosso caso, permitam-se aos mundos — mais ou menos fantásticos — escritos ou cantados, lidos ou pintados. permitam-se à catarse e às emoções. eu cá vou-me deixando cair na arte e na sua subsequente vida.

o chão do cego (o meu livro!)

sem dizer muito sobre o texto, em si — em meados de 2023 escrevi o meu primeiro livro completo — já teve umas quantas versões — em manuscritos mais ou menos corrigidos — e agora está disponível para compra, caso tenham interesse. Escrevi-o numa altura difícil, destinado a um dos meus fiéis ursos hibernados, que se encontrava abatido e magoado, numa rutura de relação — e deixei-me viver ali —liricamente em estremoz — durante algum tempo. deixei-me sentir mil e uma coisas — deixei-me amar, sofrer e conhecer amigos narrativos fascinantes — em pura catarse, deixei-me envolver por um Estremoz semelhante, mas mais mágico, fruto das mil emoções que carrego, dia a dia, neste cérebro que sou. acaba por ser algo que — por mais verde que esteja — me orgulho imenso — nem que pelos amigos literários que fiz no caminho. isto da arte pouco paga, então, se tiverem interesse e se conhecerem alguém a passar por uma ruptura de relação, o livro está a 12 paus na fnac.pt (ou no Bookmundo)!

link aqui 🙂

https://shop.bookmundo.com/en-NL/book/22012444/o-chao-do-cego/PB

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bibliografia

Bransford, Nathan (2012): “Writing as Catharsis” https://nathanbransford.com/blog/2012/10/writing-as-catharsis

Cherry, Kendra (2026): “Catharsis in Psychology” – https://www.verywellmind.com/what-is-catharsis-2794968

Psychologs Magazine (2025) “Catharsis on Paper: Poetry for Processing Emotions”

Aristotle (1450a15) “Poetics”

Koustolas, Alexandra (2016): “Emotional Catharsis in Writing” – https://medium.com/@wildguppy/emotional-catharsis-in-writing-e467db96b6fb


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