Como alguém que acabou de terminar a licenciatura e está agora a vaguear pela inércia e pela ociosidade, há muito que sinto os hematomas da culpa a ficarem gradualmente mais fortes, a cada segundo que fico quieta, ou que me permito ver um programa da Netflix. Isto, claro, faz-me pensar na culpa, como assunto, e como as redes sociais pouco ajudam a lidar com este tema. Este estudo procura explorar como as redes sociais e a nossa “pressa” geracional moderna ajuda a criar um sentimento excessivo de culpa e ansiedade nos seus utilizadores (especialmente, claro, nos mais novos). Obviamente, as pressões e “comparações” que sentimos ao ver “os outros” existir e agir sempre estiveram aqui, ao longo da história- o nosso vizinho que passou a tarde a tratar do jardim, enquanto nós nem nos levantámos da cama, o relvado verde e limpo dele, em comparação com o nosso terreno, abandonado ao tempo e às pragas- na realidade, as redes sociais são simplesmente uma nova plataforma de comparação, com um impacto mais global. Por causa do que se pode chamar de “normas sociais”, é seguro afirmar que todos nós já nos sentimos culpados por praticarmos alguma inércia, por mais grande ou pequena que a “aldeia” a que nos comparamos seja. Assim, de certa forma, abrir o Instagram é como entrar numa Aldeia Global, onde todos estão sempre a fazer tudo- caíndo sobre nós um peso sobre o que “deveriamos” estar a fazer.
Mas na realidade, o que é culpa? E porque é que a sentimos? O dicionário de Cambridge define a culpa como “um sentimento de preocupação ou infelicidade que uma pessoa tem porque fez algo de errado” mas eu acredito que esta definição fica extremamente aquém de como a culpa age e reage para com a nossa sociedade atual. Nas palavras de Szigeti “Os investigadores consideram a culpa, juntamente com a vergonha, o embaraço e o orgulho, uma emoção auto-consciente. As emoções auto-conscientes são aquelas que fazem com que uma pessoa se avalie contra padrões socialmente construídos,o que os outros consideram aceitável.” O que significa que a culpa não se constrói apenas a partir dos nossos erros e má conduta, mas também do que os outros podem achar mais, ou menos correto. A culpa, como todas as emoções, é uma parte importante de ser um ser humano- dá-nos empatia e ajuda-nos a reavaliar-nos para fazermos melhor, mas torna-se complicado quando a culpa que sentimos não é resultado de magoar outra pessoa ou de cometer erros, mas simplesmente de uma reação enraizada de não nos permitirmos a não nos conformarmos com uma forma capitalista de viver que sobrevaloriza o trabalho como a maior fonte de valor pessoal. A comparação é certamente uma tendência humana. Nós, humanos, somos criaturas sociais e é normal olharmos à nossa volta para nos tentarmos inserir melhor no mundo que nos rodeia. No entanto, há uma grande diferença entre a comparação vazia e a comparação enriquecedora (usando as definições de Dore), em que a primeira nos deixa presos e inseguros, impedindo-nos de seguir em frente, enquanto a segundo nos deixa inspirados, inclusive- motiva-nos a agir. É importante reconhecer estes padrões em termos de tentar religar os nossos cérebros daqui para a frente. Isto ganha, naturalmente, um novo nível de intensidade, quando o levamos online- a romantização das celebridades e das suas vidas “perfeitas”, a contínua quantidade esmagadora de conteúdo a ser publicada, em todo o mundo, a cada segundo, etc… Se os seres humanos são propensos a comparação e socialização, certamente não são construídos para saber o que milhões de pessoas estão a pensar a cada segundo, com um simples toque de um dedo. Este poder de informação é uma maldição disfarçada, e estamos todos condenados a aceitá-lo. Não podemos dar-nos ao luxo de “não estar online”. Agora, especialmente para quem tem um trabalho criativo/freelancing, “temos” de ter uma presença on-line. O mundo muda e as empresas adaptam-se, o mundo ganha um cariz online- se queremos conseguir pagar renda- também nós temos de sucumbir a esta realidade. O que também não ajuda é a forma como as aplicações são construídas- concebidas para te manter lá, um escravo deste efetivo “scrolling”- vídeo após vídeo, post após post. E mais uma vez, não me entendam mal- Eu também sou vítima disso, pois, no final de contas, é mais fácil passar horas no TikTok do que ter que lidar com a minha realidade, mas sei que certamente fazê-lo pouco me ajuda a lidar com esta culpa. Porque é que me sinto ameaçado por um amigo publicar uma nova música? Porque é que me sinto insegura por ver um estranho publicar um excerto de uma banda desenhada original, que provavelmente adoraria ler? Porque é que me sinto triste ao apreciar arte que me poderia outrora inspirar? Porque é que a ideia de eu não publicar num fórum de fotografia é, de repente uma prova concreta de fracasso? E porque é que sinto que devo começar uma carreira no YouTube e ter três podcasts semanais enquanto trabalho a tempo inteiro, só para mostrar o quão produtiva eu sou? Porque é que a evidência de produtividade nos outros só me impulsiona a sucumbir às minhas próprias inseguranças e só ajuda a aumentar a minha culpa?
Bem… Vamos definir “produtividade”, e a “doença” de estar ocupado. A produtividade não é uma coisa fácil de definir, pois pode ser uma variedade de coisas diferentes: deve ser medida pelo número de horas que trabalhámos? A qualidade do dito trabalho? É medido por estarmos ocupado? É o resultado final do trabalho que fizemos? Ser produtivo é trabalharmos incansavelmente todos os dias? Bem, de uma perspetiva capitalista, talvez sim.
Mas será justo chamar alguém de improdutivo se a ociosidade que praticam está a criar um verdadeiro discernimento pessoal e/ou satisfação? Poderá uma sessão de binge-watching de Sherlock, em pleno dia chuvoso ser visto como produtivo? Bom, eu penso que o que está, de facto, errado não é a noção de produtividade, mas sim a forma como nós, como sociedade, a encaramos: “Para muitos de nós, os nossos dias tornaram-se recipientes para o capitalismo interiorizado, ou a sensação de que o que fazemos está ligado ao nosso valor. (…) Quando confundimos a produtividade com o mérito, o que fazemos nunca é suficiente. Podemos sempre fazer mais, e há sempre mais para fazer”, aproveitando as palavras de Dore, quando começamos a ligar o trabalho à autoestima, estamos a “estabelecer-nos” como padrões de trabalho inacessíveis, o que, muitas vezes acaba em burnouts e baixa-autoestima. E assim, como tentativa de fuga ao mau estar que a inércia nos proporciona- mantemo-nos ocupados. Quando conhecemos alguém, não é coincidência que uma das primeiras perguntas que podemos fazer ou receber seja “O que é fazes?” e é provável que inconscientemente já tenhamos julgado alguém por parecer “preguiçoso” ou por aparentemente “não fazer nada”. Quando não conseguimos lidar com a nossa própria noção de ociosidade, como podemos não nos sentir culpados quando não estamos a trabalhar? Muitas vezes, para combater esta vontade interior de não nos sentirmos um fracasso, tentamos manter-nos ocupados, dizemos “sim” a todos os potenciais projetos ao nosso redor, e alguns de nós encontram grande conforto em partilhar esses ofícios com o mundo, através das redes sociais (que brilhantemente oferecem aos seus utilizadores a atenção pela qual anseiam, por ter pessoas “a gostar” e a “seguir” o trabalho que tão intensamente construiram).
“Internalizamos a ideia de que para estarmos contentes, temos de estar sempre a fazer alguma coisa — precisamos de estar ocupados para sermos produtivos, bem-sucedidos ou dignos.” No entanto, no final de uma semana muito “produtiva”, se sexta-feira acaba por ser um dia lento, com pouco trabalho material para ser visto e/ou partilhado, facilmente voltamos a sentir-nos ainda piores. Uma vez mais, por trabalharmos e sucumbirmos a horas incansaveis de trabalho- caso experienciemos um dia mais calmo, continuamos a não conseguir lidar com a culpa. Mantermos-nos ocupados não é a resposta para lidar com a culpa, mas sim reconhecer a sua existência e agir no sentido de a mudar. “Mantemo-nos repetidamente ocupados para evitar o medo do que pode acontecer se não estivermos (…) Agarramo-nos à grande sensação de um dia cheio e completamos a lista de coisas a fazer.”, Szigeti Z. Se só conseguimos ver o nosso valor no trabalho que fazemos ou nas atividades em que participamos, é provável que a autoestima se torne um problema, a certa altura. A autoestima é, por definição, uma avaliação de nós mesmos- muitas vezes liderada pela comparação social. Se acreditarmos, no nosso âmago, que “devemos” estar sempre a fazer alguma coisa, não estamos a deixar espaço para a ociosidade, os passatempos ou as interações sociais entre amigos e familiares, e estamos assim, a propor-nos a ser “work-aholics”, cuja culpa, garanto, também não oferece férias. A ideia do “deveria estar a fazer …” é uma mentira que lucra perante as empresas que nos rodeiam. A ideia de que trabalhar o dia inteiro é “mais produtivo” do que não sair da cama, e descansar é uma mentira. Sei que sou privilegiada o suficiente para poder “esperar e ponderar”, pois como vivo ainda com os meus pais, tenho a oportunidade de me curar dos burn-outs que a Universidade me deu, antes de me atirar ao mundo egoísta e cru do trabalho, e entendo que as minhas opiniões vêm de um lugar onde ainda não me pedem para pôr comida na mesa, e sei que isso sim é uma forma acrescida de culpa, mais pesado do que alguma vez poderei dizer. Sobre ter mencionado as enormes falhas do capitalismo, este ensaio não está, de forma alguma, a tentar inspirar alguém a começar a viver “fora da rede” ou a instruir alguém a rejeitar a modernidade, em geral. É, no entanto, um aviso de como, por vezes, as coisas que sentimos podem vir de perspetivas exteriores corrompidas, e não de dentro de nós mesmos.
É muito simples, na verdade- vivemos num mundo que se gere pela posse e pelo dinheiro- precisamos de trabalhar para existir, e o mundo não é especialmente aberto à ideia de hobbies, ociosidade ou criatividade- que não tem como objetivo tornar-se rentável financeiramente. Trabalhar longas horas para pagar rendas e alimentação oferece-nos muito pouco tempo para o prazer/ócio (mais sobre isso no artigo/botão que se segue) mas não há resposta certa ou errada, nem o momento certo ou errado.
Nós “não deviamos” estar a fazer x ou y. No fim das contas, esta ainda é a nossa vida e as nossas escolhas, e devemos tentar o nosso melhor para não deixar que a culpa tome conta de nós, quando nos comparamos com os outros, que são, na realidade, também meramente vítimas do capitalismo. Se estiveres interessado no tema da “culpa”, e “culpa da produtividade”, não posso recomendar o suficiente para que leias o livro “I Didn’t do The Thing Today”, de Madeleine Dore. Serve como um microuniverso de referências e foi uma fantástica ferramenta de pesquisa, na elaboração deste ensaio. De seguida, deixo também mais referências utilizadas como base para este texto.
Dore, M. (2022) I didn’t do the thing today on letting go of productivity guilt. Szigeti Z. What’s the verdict on academic guilt? Separating “doing” from productivity. rehabINK. 2020:9. Available from: https://rehabinkmag.com
Obrigado por leres! Até à próxima,
guida

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