sobre o ócio (e sobre este website)

“Uma obra de arte é inútil como uma flor é inútil. Uma flor floresce para a sua própria alegria. Ganhamos um momento de alegria olhando para ela. É tudo o que se pode dizer sobre a nossa relação com as flores. Claro que o Homem pode vender a flor, e por isso torná-la útil para ele, mas isto não tem nada a ver com a flor. Não faz parte da sua essência. É acidental. É um mau uso. Tudo isto temo ser muito obscuro. Mas o assunto é vasto. Verdadeiramente teu,

Oscar Wilde” na sua própria citação “Toda a arte é completamente inútil”.

O dicionário de Cambridge define a “ociosidade” como “o estado de não trabalhar”, pelo que, em teoria, indica que existir de forma inútil, pelos padrões de hoje, baseia-se em perseguir coisas que a maioria considera inúteis e desnecessárias. Praticar a ociosidade está muitas vezes correlacionado com a preguiça e com a inércia- noções normalmente vistas como um fracasso moral da sociedade, tendo em conta as nossas próprias ideias de produtividade. Mas não estará a nossa ideia de ociosidade errada? Poderá a ociosidade ser uma parte enorme e fundamental na forma como os humanos podem continuar a evoluir e a aprender? E será perseguir a curiosidade “inútil” realmente um fracasso?

Se aceitarmos a “ociosidade” como a procura de conhecimento inútil, e assim a rejeitarmos de ser vista como um comportamento positivo, é seguro sustentar que estamos a condenar a nossa espécie a um mundo sem curiosidade, arte e ciência, um mundo sem espaço aparente para crescer, e sem hipótese de evoluir, em todos os níveis.

Acredito que é seguro afirmar que a curiosidade é a raiz do conhecimento e a base de toda a descoberta, pois, sem o desejo ávido de aprender ou descobrir algo, nada existiria. No entanto, se permitirmos que as pessoas sejam curiosas e inativas, estamos a oferecer-lhes espaço para experimentar e descobrir. A curiosidade é uma essência básica dentro da nossa natureza: os seres humanos são seres curiosos e estamos constantemente a consumir conhecimento, agora, mais do que nunca, com o nosso constante scrolling nas redes sociais alimentado apenas por esta constante curiosidade (um scrolling que mantém uma economia global sobre nós) mas também motiva a aprendizagem.

Ainda no exemplo das redes sociais, eis um simples processo mental: passámos três horas no TikTok, sem pensar, a percorrer horas e horas de conteúdo aparentemente “vazio”. Talvez muitos considerariam que agimos de forma “ociosa”, alguns usariam até o termo “preguiçosa”, ou até nós mesmo nos sentiríamos mal por temos “gasto” o nosso tempo numa prática com nenhum resultado aparente imediato- recompensa instantânea= uma mentalidade altamente destrutiva e atual- mas será este scrolling de algumas horas assim tão “inútil”?

“Eu disse que ele podia ter a certeza de que eles tinham feito o seu trabalho sem pensar na sua possível utilidade e que ao longo de toda a história da ciência a maior parte das grandes descobertas que em última análise se provaram ser benéficas para a humanidade tinham sido feitas por homens e mulheres que foram conduzidos não pelo desejo de serem úteis, mas apenas pelo desejo de satisfazerem a sua curiosidade.”- Flexner

Imaginemos que, nestas horas de scrolling, nos deparámos com um vídeo de alguém com um problema específico, que mais tarde nos levou a um enorme trabalho de pesquisa e escrita sobre este problema aparentemente “inútil”. Agora imaginemos que, dentro desta pesquisa, encontrámos um novo importante dado de investigação científica que pode vir a beneficiar o mundo inteiro: continua o nosso “conteúdo vazio” a ser inútil?

Eu entendo que isto possa parecer um exagero- passarmos de memes de TikTok ocos à cura de uma doença- certamente parece uma hipérbole, pois todos nós já passámos horas “vazias” on-line e a maioria de nós ainda está por descobrir ou pesquisar sobre qualquer cura desconhecida. Mas ao tirar tempo para o ócio, quer estejamos a pesquisar ou a descansar, não devemos sentir que nos estamos a comportar mal ou que o nosso momento de inércia nos torna incapazes e inúteis, para a sociedade.

Se agora queremos escrever uma tese sobre o cérebro humano, ou se simplesmente vi-mos pessoas a dançar, nesta aplicação onde passámos horas, nós somos criaturas sociais, que vivem e evoluem com base no que vemos, ouvimos e sentimos, o que levanta a questão: Como é que a pura existência pode alguma vez realmente ser inútil? Se nós, como seres humanos, não temos tempo e oportunidade de nos comportarmos ociosamente, como é que podemos dar-nos ao luxo de ser curiosos? Como é que podemos permitir-nos a querer aprender?

Redes sociais à parte, é bastante fácil entender como a “ociosidade” pode proporcionar um ambiente melhor para a curiosidade do que um espaço de trabalho que nos força a criar dados “úteis” e “importantes”. Se estamos a fazer alguma coisa com a intenção de salvar o mundo, estamos a trabalhar com uma pressão aplicada sobre nós- pressão essa, que não nos deixa espaço para sermos curioso. Ao forçarmos-mos a criar algo completamente útil, não nos damos espaço para qualquer falha e/ou erro. Infelizmente, isto é algo que as escolas também ajudam a reforçar, ensinando os seus alunos a procurar lucro, invés do conhecimento.

Mas o que é utilidade, e como podemos classificar algo como “útil?”

Uma parte importante de ser humano e fazer parte de uma comunidade em larga escala é a opinião. Cada indivíduo tem uma maneira diferente de olhar para a vida e para os seus esforços. Assim, como em todas as coisas, o que é útil para um tende a não ser útil para o outro.

“Tu és um sapateiro, eu sou um poeta… Um dicionário de rimas é muito útil para mim, mas um sapateiro não precisa de um para consertar um par de botas velhas, e.… uma faca de sapateiro não seria boa para mim para escrever odes. Então vais supor que um sapateiro é muito superior a um poeta, e que podes mais facilmente viver sem um do que o outro. Sem querer desvalorizar a nobre profissão de sapateiro…. Humildemente afirmarei que preferiria… viver sem botas do que sem poemas…”-Gautier

Como é que se pode realmente definir a utilidade? Claro que podemos ir para as necessidades básicas de sobrevivência- comida, água, oxigénio e abrigo. Mas há uma grande diferença entre viver e sobreviver. Como seres vivos, a sobrevivência é uma parte essencial da vida, mas como seres humanos, há um pouco mais do que isso. Tendemos a procurar significado, tendemos a procurar uma maior ligação com o nosso planeta, com outros humanos, com a natureza. Estabelecemos línguas e regras, criámos e destruímos sociedades- diria estamos um pouco além da “sobrevivência”. Então, o que mais pode ser visto como útil? E será justo rotular algo como “inútil” se simplesmente não nos for útil, como indivíduo?

“As únicas coisas que são realmente bonitas são aquelas que não têm utilidade; tudo o que é útil é feio, pois é a expressão de alguma necessidade, e as necessidades dos homens são ignóbeis e repugnantes… o lugar mais útil nas nossas casas são as casas de banho. (…) O prazer parece-me ser o objetivo da vida e a única coisa útil no mundo. (…) Mulheres, perfumes… belas flores, bom vinho… e gatos angora… (…) uma boca mais sensível do que o resto da nossa pele para beijar mulheres, um subtil olfato para respirar a alma das flores… mãos delicadas para acariciar… as costas aveludadas dos gatos… que, em suma, nos deu o glorioso privilégio de beber sem ter sede… e de fazer amor durante todo o ano, o que nos distingue dos animais muito mais do que… fazer gráficos…” -Gautier

Embora seja visto como um comportamento inútil numa questão social, será justo chamar cultura e autodesenvolvimento inútil? Há muito que existem diferentes escolas de pensamento sobre a ociosidade, a curiosidade e a utilidade, ao longo da história. Boccaccio, Heidegger, Gautier, Victor Hugo, Karl Marx, Platão e Aristóteles, juntamente com muitos outros Homens e pensadores, refletiram sobre o seu respetivo “homem moderno” e a constante recusa de praticar a ociosidade.

O homem moderno, universal, é o homem atarefado, que não tem tempo, que é escravo da necessidade, que não compreende sequer que, na realidade, a utilidade pode ser um peso inútil, opressivo. Se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte; e um país onde não se compreende a arte é um país de escravos ou de autómatos, um país de pessoas infelizes, de pessoas que não riem nem sorriem, um país sem espírito; onde não há humor, não há riso, há raiva e ódio” Eugène Ionesco, numa conferência realizada em 1961

Quanto mais avançamos, mais esta questão parece solidificar-se, o nosso mundo é totalmente movido pela riqueza e economia de práticas materiais, e a nossa sociedade neoliberal só vem ajudar a ideia de que se deve trabalhar, constantemente, em algo prático e “útil”. Vamos analisar, verdadeiramente, como é que a nossa sociedade lida com a ociosidade e a curiosidade, ao começar pelo início da nossa carreira- dentro das paredes escolares. Deveria ser da responsabilidade de uma escola incentivar os seus alunos a estarem ansiosos e motivados para aprender, ajudá-los a desejar conhecimento e inspirar a curiosidade, em vez de apenas motivar e recompensar aqueles que já mostram uma inteligência mais aparente. Tenho a certeza de que todos já testemunhámos um colega ser repreendido por fazer “muitas perguntas” ou ser classificado como “irritante” por tanta curiosidade recorrente. Já devemos ter ouvido professores queixarem-se de terem sido questionados, apenas porque a questão curiosamente posta pelo aluno “não está no currículo”, e como se atreve um aluno a ter curiosidade sobre outra coisa que não o que vai sair no teste? Tomemos também nota de como a sociedade considera as crianças com cerca de dois ou três anos como irritantes, por entrarem na sua “idade dos porquês”- uma fase em que começam a tentar perceber o que os rodeia e a serem, no geral, seres curiosos. Assim, a curiosidade parece ter uma breve janela de positividade ligada a ela.

Ainda sobre esta matéria, porém, temos de reforçar o quão perigoso é o erro de ensinar os alunos a identificarem-se exclusivamente com a sua futura carreira (mais sobre isto no artigo abaixo) e, por causa da forma como o capital parece funcionar, procurar sempre o lucro acima da sabedoria.

sobre a culpa/produtividade

Então, como podem as escolas rejeitar a curiosidade? Como podem os estabelecimentos determinados a proporcionar um ambiente de aprendizagem adequado e a criação de uma conversa aberta sobre educação, rejeitar tão impiedosamente os ideais em que se baseia? Como pode a maioria das escolas negligenciar as artes? Negligenciar a ciência experimental? Negligenciar os jovens poetas que ficam indefesos com falta de recompensa? Porque é que as crianças estão a ser punidas por alcançarem uma solução matemática correta, apenas porque chegaram a essa resposta calculando-a de maneira diferente? Como podemos rejeitar a procura de conhecimento num lugar onde essa é a sua premissa? E quão diferente poderia ser o nosso mundo se deixássemos que isso acontecesse?

“Desta atividade inútil, vêm descobertas que podem muito bem revelar-se infinitamente mais importantes para a mente humana e para o espírito humano do que a realização dos fins úteis para os quais as escolas foram fundadas. As considerações sobre as quais toquei sublinham- se a ênfase fosse necessária – a importância esmagadora da liberdade espiritual e intelectual. Tenho falado de ciência experimental; Falei de matemática, mas o que digo é igualmente verdade para a música e a arte e de todas as outras expressões do espírito humano imaculado. O simples facto de trazerem satisfação a uma alma individual, empenhada na sua própria purificação e elevação, é toda a justificação de que precisam. Não fazemos promessas, mas estimamos a esperança de que a busca desafogada de conhecimento inútil venha a ter consequências no futuro, como no passado. Nem por um momento, porém, defendemos o Instituto nesse terreno. Existe como um paraíso para os estudiosos que, tal como poetas e músicos, ganharam o direito de fazer o que quiserem e que mais realizam quando estão habilitados a fazê-lo. “-Flexner

Rejeitar a ociosidade é condenar o mundo de progresso. Rejeitar a curiosidade é condenar o mundo a permanecer o mesmo. Rejeitar a inutilidade é rejeitar a humanidade, os erros e as falhas. Rejeitar tudo isto é aceitar que a cultura não é essencial para todos nós. E que impossível e triste seria esse mundo.

“Um poema, uma sinfonia, uma pintura, uma verdade matemática, um novo dado científico bastam para justificar a existência de universidades, escolas e centros de investigação” -Ordine

Vou agora pôr a matemática e a ciência de parte e concentrar-me principalmente na arte, por si só. E é verdade que a maioria acha que a arte é totalmente inútil- para muitos, uma faca será sempre mais útil do que uma pintura, um carro mais útil que uma caneta, uma colher mais útil que um baixo ou uma guitarra. Vimos o fim de alguma humanidade em várias ocasiões mundiais onde as pessoas estavam (e algumas ainda estão) privadas da cultura. Ler, escrever, ouvir, sentir- a cultura e a ociosidade devem ser um direito, pois são uma parte essencial da vida. Mas os escritores não escrevem, pois mal têm tempo para o fazer. E os pintores não pintam porque as sociedades só os veem como meras veias para um passatempo inútil.

“Não é cortando os fundos à cultura que se vence a crise, mas sim redobrando-os. (…) eu digo, meus senhores, que as reduções propostas ao orçamento especial para as ciências letras e artes são negativas por dois motivos. Insignificantes em termos financeiros e nocivas de todos os outros pontos de vista” –Victor Hugo.

É exatamente quando as coisas ficam mais difíceis, que um país deve investir na procura do conhecimento, e na educação da sua juventude, para evitar que a ignorância reine. Neste momento, tenho a certeza de que entendem que o nome deste website não é coincidência com perante o assunto em questão. Creio que somos, no nosso âmago, filhos do ócio, e devemos poder praticar de forma impendiosa, de forma positiva. Estas palavras que estou a escrever, às 19h, no meu quarto, são completamente inúteis. Lamento muito, caro leitor, mas, pelos padrões da sociedade, se chegaste tão longe na leitura destas palavras, já desperdiçaste o teu tempo.

E talvez a sociedade tenha razão: talvez estas palavras sejam inúteis, vazias e ocas. Talvez tenha desperdiçado o meu tempo ao escrever isto, tanto em inglês como em português. Talvez tudo o que li sobre este assunto tenha sido apenas um passatempo estúpido, que só posso praticar porque ainda vivo com os meus pais e ainda não estou a lutar para pagar a renda. Mas, inútil ou não, postado aqui, ou não, não posso dar-me ao luxo de parar de escrever. Porque amo palavras, caro leitor. Não consigo estar sem palavras. Não consigo aguentar sem escrever. Assim, inútil, ou não, vou continuar a ler, e continuarei a escrever. Inútil ou não, acredito que as palavras têm poder, imenso poder. Então que seja inútil, e que seja vazio.

Pois, no final de contas, somos todos filhos do ócio.

guida

bibliografia

Flexner, A. (1955) “The usefulness of useless knowledge,” Journal of Chronic Diseases, 2(3), pp. 241–246. Available at: https://doi.org/10.1016/0021-9681(55)90131-4.

GAUTIER, THEOPHILE (2015) Mademoiselle de Maupin. S.l.: BOOKLASSIC.

Ordine, N. (2017) The usefulness of the useless. Philadelphia, PA: Paul Dry Books, Inc.


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